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Na guerra do streaming, nem todos querem ser uma nova Netflix

Na guerra do streaming, nem todos querem ser uma nova Netflix

Quando se trata do streaming de vídeo, a Amazon segue fazendo o sabe fazer melhor: agir como um grande distribuidor. Neste momento, nada menos que 53% de toda a revenda da assinatura de canais de televisão pela internet passa por essa empresa.

Caso você ainda não tenha reparado, nem só de conteúdo próprio vivem os serviços de streaming. HBO, Showtime, Cinemax e vários outros serviços de terceiros atualmente podem ser assinados por meio da Amazon Prime Video e outras plataformas.

A Apple gostou do modelo e está seguindo o caminho que foi aberto pela Amazon Prime Video. 

As produções próprias, que são de altíssima qualidade, diga-se de passagem, tem servido principalmente como uma isca para que as pessoas se tornem usuários ativos da plataforma e eventualmente comprem o conteúdo de terceiros. 

Como em todo bom funil de vendas, o cliente ideal começa nas ofertas de fechamento mais fáceis (séries exclusivas em um serviço de preço competitivo ou até mesmo gratuito) e depois vão para as ofertas que não seriam de venda tão fácil em um primeiro momento (como assistir HBO via interface da Apple TV).

Nesta jornada do consumidor, a praticidade de usar uma única interface oferece um apelo interessante, mas não é o único. Há também a conveniência de se contratar um produto na mesma empresa ao invés de ser obrigado a fazer todo o processo de cadastro e de pagamento em algum um outro lugar.

A linha de produtos que inclui o device Apple TV, o serviço de streaming Apple TV+ e o aplicativo Apple TV App já criou uma experiência de consumo de vídeo que baseada em Apple desde o hardware até o conteúdo. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito a respeito da nomenclatura dos produtos, que nos dá a impressão de ser tudo a mesma coisa.

Há algum tempo, a Netflix deixou de focar apenas no licenciamento de produções de terceiros e começou a produzir o seu próprio conteúdo original – o que requer muito mais caixa inicialmente, mas guarda o potencial de maiores retornos no longo prazo. 

Mas repare que, seja pelo licenciamento do conteúdo de terceiros, ou pela criação de conteúdo original, o modelo financeiro da Netflix sempre se baseia no investimento de dezenas ou centenas de milhões de dólares no presente para geração de um fluxo de caixa no futuro. 

Já a Disney+ possui uma lógica completamente diferente. Obviamente, a Disney trabalha para que o produto seja lucrativo, mas esta é apenas uma peça dentro de uma estratégia empresarial que inclui parques, licenciamento de marcas e várias outras coisas.

The Disney Recipe

A grande sacada deste produto é que, apesar de ter uma longa história e uma marca amada por muitos, a Disney nunca teve uma forma de relacionamento direto com o mercado. 

Em tempos de internet, é impressionante ver que uma empresa como a Disney não fazia a menor idéia de que é o seu cliente? Famílias visitavam os parques, compravam produtos (via terceiros) e a Disney não conseguia manter um vínculo com essas pessoas para a venda de novos produtos. 

A Disney+ trouxe justamente isso, uma forma de conhecer o cliente, manter um vínculo com ele e aproveitar esta informação para as outras áreas do negócio. 

Não havendo formas de capturar valor de forma indireta (como é o caso da Disney), a estratégia normal para este tipo de produção é que ela seja licenciada para o número máximo possível de canais de distribuição, e pelo maior valor possível. 

Essa “estratégia normal” é exatamente o que costumava acontecer com os filmes que seguiam uma sequência cuidadosa de cinema, depois locadoras, venda para o varejo etc. – em uma sequência muito bem organizada para extrair o maior resultado possível de cada um deles.

De fato, um produto com altíssimo custo de produção e custo marginal próximo de zero não poderia ser tratado de outra forma. 

O que acontece é que, neste momento do mercado, a necessidade de alavancar ao máximo um investimento não pode ser feito de nenhuma outra forma além do licenciamento para a própria Netflix, que é a plataforma com o maior número de clientes e por isso, maior poder de compra.

Atualmente, alavancar os altos investimentos em produções cinematográficas não pode ser feito de nenhuma outra forma além do seu licenciamento para a própria Netflix.

No entanto, ao invés de alavancar seus investimentos vendendo as produções para um número cada vez maior de plataformas ou distribuidores, cada um dos principais produtores de conteúdo está focado na criação das suas próprias plataformas, com nomes que vão desde um HBO Max até um NBC Peacock.

A sustentabilidade destes serviços é bastante questionável para o longo prazo. Além da estrutura de streaming, ainda é necessário manter toda uma estrutura de suporte, billing e marketing.  

Em meio a tudo isso, recentemente foi anunciado que os canais vendidos pela Amazon Prime poderão ser acessados por meio do Apple TV app, sem que a Amazon precise pagar os tradicionais 30% de revenue share para a Apple. 

Ou seja, um revendedor fazendo parceria com outro revendedor. A notícia pode ser surpreendente, mas com base no que foi dito anteriormente, será possível ver que a parceria faz muito sentido. 

Antes de mais nada, repare que aqui nós temos duas empresas que trabalham com estratégias semelhantes e que estão lutando contra o grande bode na sala, que é a Netflix.

A Netflix foi a criadora deste mercado e nunca deixou de investir de forma extremamente agressiva. 

Continuando nesse ritmo de crescimento, pode ser que em algum momento os estúdios vejam mais sentido em vender as suas produções (de forma atomizada) para a Netflix e deixar o conceito de canais se tornar uma relíquia de um passado distante.

Não havendo canais, Amazon Prime Video e Apple TV+ podem até se sustentar -- afinal, alguns dos maiores gigantes da tecnologia estão por trás destes produtos. Mas o seu modelo de negócio poderá não fazer mais sentido, daí vem a lógica destes concorrentes se unirem contra um inimigo comum.

O problema é que, com ou sem domínio da Netflix, tudo caminha para que o conceito de canais se torne coisa do passado. Afinal, uma das grandes vantagens do streaming é justamente a possibilidade de livrar as pessoas das restrições que sempre foram  impostas pelas grades de programação. 

Uma vez que a Netflix mostrou que este tipo de estrutura travada de horários já não é mais algo necessário, não parece haver tantos motivos para que esta limitação se mantenha para o longo prazo.

Cada um dos players que apareceu depois da Netflix está buscando a sua estratégia para este novo mercado. Mas ao que tudo indica, não havendo outros fatores estratégicos em jogo, esta é uma conta que só pode fechar uma vez em que exista um patamar de investimento em produção e uma enorme escala de distribuição.

Na guerra do streaming, nem todos querem ser uma nova Netflix, mas a despeito de todos os seus desafios, é a própria Netflix que parece ter um modelo de streaming “puro sangue” mais sustentável para o longo prazo.

 

Foto de capa retirada do site blog.warrenger.net.

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